domingo, 17 de agosto de 2014

O médico que salvou a minha mãe

Achamos sempre que a tragédia não nos atinge, que a desgraça bate sempre à porta do vizinho. A nós, nada nos acontece. Aos outros, coitados, vai acontecendo.

Até que chega a nós. Quando menos esperamos, quando não achamos possível que suceda, o horror bate-nos à porta de mansinho. Tal como aqueles convidados ao Domingo à tarde que aparecem à nossa porta para lanchar e interrompem o serão da lareira e cobertores. Mas a tragédia, essa, não traz o lanche, não traz alegria, apenas tudo aquilo que "só acontece aos outros".

Eu já lhe abri a porta. Em 2012 a minha mãe teve um aneurisma. Rebentou. Inundou o cérebro dela de sangue, um cenário dantesco na TAC. Meses de internamento, comas, induzidos e não induzidos, cirurgias daquelas que achamos que só acontecem nos filmes. Um cenário perturbador, que ainda hoje me causa espécie quando nele penso.

A minha mãe sobreviveu. Sem sequelas. Apenas um aumento absurdo de dioptrias e uma diminuição de memória e concentração. Assim, como se nada lhe tivesse acontecido, sobreviveu. Ficou bem. Está bem. Está comigo.

Neste processo que durou meses vários médicos estiveram envolvidos, mas um em particular foi marcante e crucial no processo de recuperação. Esse médico é amigo da família há vários anos. Desde que me lembro que me encontro com ele, vamos tomar café, conversamos como amigos, mesmo com a diferença de mais de 30 anos entre os dois. Um verdadeiro amigo que ajudou a salvar a vida da minha mãe.

Hoje foi a ele que lhe bateram à porta. A filha, encontrada sem vida. Derrame cerebral. Pouco mais velha que eu. O horror. Fico sem palavras nestes momentos.

Este ano está particularmente devastador a ceifar vidas. Vidas de jovens, com tanto pela frente, como eu, como tantos outros.

Não é justo. A ele, a vida deixou de lhe sorrir. Não voltará a sorrir, sequer.

"Não sei o que vou fazer com a minha vida agora".

Não lhe soube responder.

4 comentários:

  1. É agora a tua vez de o acompanhares. Força!

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  2. Respota: "Agora, eu estou aqui para ti, como tu estiveste para mim" ;)

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  3. São situações que nos deixam sem palavras.
    Mas com certeza conseguirás conversar com o teu amigo com sensibilidade e amizade. ;)
    Teremos que o saber fazer. E muito bem...

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  4. São momentos muito complicados. Terás de ser um ombro amigo.
    Força!

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