sábado, 2 de março de 2013

Coisas que desgosto #2

Um dos grandes problemas de um estudante deslocado é a partilha de casa. Cada pessoa tem a sua própria personalidade, e cada um vive à sua maneira e está habituado de certa forma. Por isso, quando chega a altura de irmos partilhar uma casa com pessoas desconhecidas, com hábitos e estilos de vida diferentes, a coisa complica-se um pouco. Vejam-se algumas das situações com as quais tenho que lidar diariamente e que, como o título sugere, desgosto.

1) Partilha de WC
Esta é, meus amigos, uma das coisas que mais me fez confusão quando saí de casa. Com que tipo de pessoa vou eu partilhar a minha casa-de-banho? Será que ela toma banho??? Será que vai mexer nas  minhas coisas? Será que vai roubar o meu papel higiénico? Será que se vai baldar às tarefas de limpeza? Por sorte, até me calhou uma menina relativamente calma para dividir a casa-de-banho. No entanto, sinto-me extremamente aliviada, já que não temos que dividir tarefas de limpeza (acho que a nossa senhoria tem medo que morramos enterradas no meio do esterco e prontificou-se, desde logo, a fazer limpeza às partes comuns). É um sossego, senão desconfio que aqui a pessoa ia andar a limpar a casa-de-banho sozinha...

2) Horários diferentes
Sou uma pessoa que gosta de ir dormir cedo. Cedo tipo por volta da meia noite. Mas as minhas colegas de casa têm um problema grave com dormir à noite e estudar/viver de dia, fazendo precisamente o contrário. Ora, quando o sono começa a atacar para estes lados, lá vou eu sossegadinha para o meu canto, tentar desfrutar do meu sono de beleza. E porque é que esta é uma tarefa complicada? Porque fiquei com o quarto do meio, logo ouço todo o barulho, e porque as minhas colegas não sabem, simplesmente, respeitar o meu sono. Ele é portas a bater, ele é conversas até às quinhentas, telefonemas e sms, gargalhadas até mais não, enfim, uma festa! E não adianta dizer nada, porque 5 minutos depois voltamos à velha história (e ainda fazem queixinhas à senhoria, como se ela fosse nossa mãe! Arre!).

3) Gastos
Já se sabe que quando se juntam três pessoas que não se conhecem de lado nenhum na mesma casa, há-de haver sempre pontos de divergência entre elas. O nosso reside nos gastos. Eu sou da opinião que devemos poupar, seja na água, seja na electricidade. A visão da minha colega é, precisamente, a oposta. "Mas se eu estou a estudar fora e a sofrer muito por estar longe da minha família, quero ter o mínimo de conforto para viver em paz". Pois. Mas o conceito de conforto dela é diferente do meu. O conceito de conforto, para ela, é ter sempre o aquecedor ligado no máximo (e depois abrir a janela porque, ai, o meu quarto está muito quente), ligar todas as luzes por onde quer que passe (porque eu tenho de ver bem por onde ando, eu não estou em casa onde conheço todos os cantinhos!), não abrir as janelas logo pela manhã (o sol incomoda taaaanto de manhã), entre outras coisas absolutamente ridículas e absurdas.

Lembram-se de quando vos pedi, gentilmente, um carrinho caso vos saísse o euromilhões ou algo parecido? Pois bem, vejo-me obrigada a pedir-vos, novamente, da forma mais gentil que consigo, que, se houver por aí alguma alma caridosa que se compadeça do meu sofrimento e tenha uns tostões a mais e não saiba o que fazer com eles, que os invista na renda de um T0 para a minha pessoa. É só vantagens: garanto-vos guarida se algum dia desejarem visitar a cidade neve, prometo cuidar e estimar o espaço, com o benefício de melhorarem a minha performance académica, já que não ando tão ocupada a chatear-me com as minhas conterrâneas. Ora, e uma melhor performance académica significará uma melhor profissional, que é exactamente aquilo que vocês querem e precisam. E, como já vos disse, prometo ainda dar-vos consultas grátis e passar-vos à frente de todos os velhotes em lista de espera! Parece-vos um bom negócio?

Pensem nisso!

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Secundário

SPOILER - Hoje temos um post sentimental.

Hoje voltei à minha antiga Escola Secundária, aquele onde passei, garanto-vos, os melhores anos da minha vida. Ao contrário das pessoas normais, posso dizer que, para já, gostei mais dos meus tempos de estudante do Secundário do que dos de Faculdade. Não sei se é porque a vida era fácil, se por estar em casa, se por ter lá feito os meus melhores amigos, ou se foi porque lá conheci a minha pessoa, com quem ainda hoje estou.

Hoje voltei, como já disse então, à minha Escola. Mas aquela já não era a minha Escola.

Foi anunciado, quando estava no 12º ano (o que aconteceu no lectivo 09/10) que a minha escola ia ser toda remodelada. Estava velhinha e um bocadinho degradada o que, na minha opinião, não era nada que não se pudesse resolver sem uns restauros. O projecto inicial era aumentar um andar em cada pavilhão. Até aí, tudo bem. Imaginei logo a minha escola toda imponente, cada bloco com 3 andares! Mas foi tudo por água abaixo. O segundo projecto seria manter o polivalente (a principal sala dos alunos) e demolir os blocos de aulas propriamente ditos para fazer um mega bloco, com tudo renovado. Embora tenha sentido uma ligeira facada no coração, pensei "bem, pelo menos o polivalente continua de pé". Pois, mas nada disto aconteceu. No ano seguinte à minha saída de lá, o projecto já era fazer uma nova escola do zero. O objectivo era fazer uma escola moderna, toda equipada e com todos os recursos necessários. A mim pareceu-me que eles queriam era fazer uma máquina de alunos, mas tuuudo bem. A demolição foi indo aos poucos, e nos primeiros tempos, quando lá voltei, ainda havia pedaços da escola onde andei, o que sempre me fez relembrar os bons momentos lá passados sempre que lá ia.

No entanto, quando lá fui hoje, senti-me perfeitamente defraudada e excluída daquela que foi, em tempos e para mim, a melhor escola de sempre. Vejam só que hoje fui lá para ir tratar de umas papeladas e a única coisa que reconheci foram alguns funcionários professores. Nada resta da minha antiga escola. Aconteceram, obviamente e como não podia deixar de ser, situações caricatas

Em primeiro lugar, não dei logo com a entrada do sítio. Resolveram colocar uma data de grades de ferros, super imponentes, pretas e soturnas, obviamente sem estilo nenhum, que nos confundem logo à partida. Andei então lá as voltinhas para descobrir qual das grades era, na realidade, uma porta. Primeiro objectivo conseguido.

Posto isto, avizinhava-se a segunda missão: descobrir a secretaria. Não havia ninguém à vista, aquilo mais parecia um deserto (de cimento porque as árvores que lá havia foram-se todas à vida - Chamem os Verdes!! Vergonha!!! Uuuuuuh!). Lá vislumbrei dois catraios, quase com idade para serem meus filhos (nem tanto mas pronto), e perguntei-lhes onde era a secretaria. Lá me indicaram o sítio.

Entrei e aquilo mais parecia um hotel de 5 estrelas. Verdade. Senti-me logo intimidada por todas as mensagens de boas-vindas, placas pomposas a anunciar que o ministro não sei das quantas esteve lá, o cheirinho a tinta e a verniz. Em seguida, dirigi-me à recepção para fazer o check-in, que é como quem diz perguntar onde e a quem me dirigir.

Tratadas todas as papeladas, resolvi dar uma volta para ver como estava tudo. Tristemente, nada me pareceu familiar. Não havia caras conhecidas, não encontrei nenhum professor e também ninguém se pareceu lembrar de mim. Nada mais me liga àquela escola. Aliás, aquela já não é mais a minha escola, porque o que resta dos tempos em que lá andei não é mais senão o nome. Isso entristeceu-me

Resolvi vir embora, com a certeza de que o tempo passa rápido e que não volta atrás.

O que era já foi, e o que foi não volta a ser.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Viagens e Malas

Uma das coisas que menos gosto nesta vida é fazer malas. É todo um processo complicado e moroso e, para as raparigas, esta tarefa é dez vezes pior. Há certas coisas coisas que têm de andar sempre comigo, e há certas coisas das quais só possuo um exemplar, ou seja, basicamente ando sempre com "a casa às costas". Vejamos alguns exemplos:


1) Maquilhagem - toda e qualquer rapariga tem o seu estojo de maquilhagem, devidamente equipado com cremes, bases, sombras, rímel e afins. E, se forem como eu, piquinhas como tudo, usam apenas uma determinada marca e uma determinada cor comprada na farmácia/supermercado X. Ora, estes produtos são caros (a não ser que os comprem nos chineses. Atenção, nada contra, apenas não gosto de arriscar a minha pele e prefiro algo mais seguro), e portanto só possuo um exemplar de cada, pelo que a minha bolsinha anda sempre atrás de mim.



2) Bijutarias e bugigangas - este ponto segue nos mesmos moldes que o anterior. Todas nós possuímos uma bolsa de bugigangas, com todos os nossos colares, anéis, pulseiras e afins. E, obviamente, como são peças que fui coleccionando ao longo da minha vida, nunca me passou pela cabeça enquanto as comprava o pensamento "Ah, deixa cá levar dois exemplares porque, quiçá, talvez daqui a uns anitos vá estudar para fora e tenho que andar com a tralha toda atrás de mim e depois é uma chatice". Pois, não pensei assim, e também nunca pensarei. E, portanto, essa é outras das coisas que andam sempre atrás, e é uma chatice quando me esqueço delas, o que já aconteceu. Sobreviver àquela semana só com um relógio e sem elementos decorativos para animar o meu look foi uma tristeza.



3) Aquela escova de cabelo - sei que pode parecer estranho, mas há uma escova especial, da qual, novamente, só possuo um exemplar, que uso para andar para aqui a fazer uns caracolitos no cabelo. E é aquela escova, é especial e mais nenhuma a substitui, pronto. É tão especial, reparem lá, que, se a usar, pareço a Kate Middleton, se não a usar pareço a Whoopi Goldberg (true story!).



4) Livros - este não é o item mais precioso da minha mala, mas é aquele que, para onde quer que eu vá, me segue e persegue. É, basicamente, a minha sombra. Ora, como já sabeis, sou obrigada a fazer um estudo constante e intensivo, portanto, ir de fim-de-semana e não levar os livros para estudar, é simplesmente proibido. Portanto, lá vai a triste coitada com os mostrengos atrás, feita burra de carga.



5) Computador - Ora, como não sou rica e ainda não ganhei o euromilhões, ter um computador cá e um lá está, simplesmente, fora de questão. Portanto, todas as semanas lá vou eu com o trambolho atrás, sim, porque o meu computador, apesar de bem estimado, já está um pouco velhote e pesa, com cabos e mala e todos os apetrechos, sensivelmente 6kg. 6kgs são 6 pacotes de arroz, ou um garrafão de água daqueles novos e que levam mais água (obrigada Continente por não quereres que os portugueses morram à sede), ou ainda 24 pacotes de manteiga! Já imaginaram andar com 24 pacotes de manteiga atrás?? Pensem nisso.



6) Indumentárias - Este item é óbvio e nem merece grande discussão. Todas as semanas lá vou eu com a roupinha atrás (após ter consultado a meteorologia para a semana que não se pode ir ao engano e também não se quer que a mala pese de mais) para a semana, e ao fim de semana lá a trago toda de volta para a minha mãe a lavar (desculpa mãe, mas obrigada, o que seria eu sem ti??).



Estes são apenas alguns dos items mais preciosos e chatinhos de serem carregados e que, parecendo poucos, todas as semanas me causam dores nos meus ricos ombros e incómodo por ter de andar a arrastar o malão pelas escadas acima. Se por acaso se compadecerem da minha situação e se quiserem oferecer para transportar as minha malas, ou oferecer-me um carrito (que isto é uma chatice andar a enfiar e a tirar malas de porões que são tão ou mais altos que eu), fico eternamente agradecida. Prometo, como recompensa e agradecimento, prometo passar-vos à frente nas listas de espera do hospital e dar-vos tratamento VIP (mas não digam a ninguém, conflito de interesses não é permitido!).



Tudo para benefício da saúde, minha e vossa!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

De volta à realidade

Isto é tudo muito bonito estar uma semana de férias em casa, mas não se pode procrastinar mais. Há que voltar à realidade e aceitar que o carnaval, o dia dos namorados e todas as outras desculpas esfarrapadas para não fazer nenhum, acabaram.

Ainda assim, e apesar de ter havido muito estudo esta semana (para a semana  há exames e trabalhos para entregar) é sempre bom passar uns dias em casa, rodeada daqueles que mais gosto, sem ter de me preocupar com coisas como cozinhar, lavar pratos, arrumar e fazer limpezas. Obrigada mãe.

E portanto, e como amanhã é o penúltimo dia em casa, está na altura de começar a pensar em ver a meteorologia para a semana, fazer a mala e preparar as coisas para voltar.

Mas nem tudo é mau. Ontem foi o dia dos namorados, o que proporcionou um serão mais descontraído, do qual saímos com um valente avião depois daquele mega jarro de sangria branca, uma maravilha. Cortesia do Al Forno D'Oliva. É disto que eu gosto: boa comida e boa companhia! Dos livros nem tanto, mas faz-se o que se pode.

Ora então, até amanhã, que é Sábado mas é dia de trabalho na mesma.


(A minha pessoa no domingo)


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mitos médicos

Têm-me chegado até aos ouvidos umas quantas barbaridades que são ditas acerca dos médicos/aspirantes a médicos. Vamos, então, pôr os pontos nos is, e esclarecer este assunto, doravante designado por "Mitos médicos".

1) Somos todos muito inteligentes

AHAHAH. É a única reacção possível. Desculpem, não quero ferir susceptibilidades nem afirmar-me como a nova Stephen Hawking do século mas, a sério, deixem-se disso, há gente muita burra em medicina. E digo-vos isto com muita franqueza porque é verdade. Infelizmente, este curso está associado a pessoas com grandes notas de entrada, o que não é mentira, mas ter um rico 20 estampado na pauta nem sempre é sinónimo de inteligência. Pode ser apenas sinónimo de marranço, muitas vezes associado a burrice pura. Sim, porque há médicos/aspirantes a médicos que não fazem a mínima ideia do que se passa no mundo, que não vêm as notícias, não lêm os jornais, não lêm livros e não se cultivam. Para mim, inteligência é um todo: é, obviamente, estudar bastante (até porque neste curso é preciso), mas é também fazer toda uma série de coisas que contribuem para a nossa formação como indivíduos, seja ler, seja viajar, seja ouvir as notícias ou ver um filme. Isso é muito importante, e, desculpem desiludir-vos, mas nem todos somos assim.

2) Não temos vida social

AHAHAH nº2. Lamento desiludir-vos novamente, mas nem todos somos ratos de biblioteca. Aliás, para aqueles que ainda andam no meio estudantil, certamente saberão a fama que têm as festas de medicina. São conhecidas pela sua agressividade, pela sua quota alcoólica elevada, pelas suas figuras tristes, enfim, por ser a destruição. Nós não gostamos de queimar neurónios (e pestanas) só a estudar, sempre que podemos sai daí uma festa. E não é uma festinha qualquer, é um festão, uma destruição hepática extrema, capaz de levar qualquer um para ao INEM ao fim da noite. Pois é, amigos, desengane-se quem pensa que, lá por estudarmos o nosso metabolismo e sabermos o mal que o álcool nos faz, deixamos de o consumir. Violentamente.

3) Não temos vida amorosa

Este é outro dos grandes mitos. Vocês pensam "ai coitadinha que está sempre a estudar e não arranja um namoradito para ir dar umas curvas". Seus feios. Informo-vos que mantenho uma relação estável, sólida e duradoura há 2 anos, 7 meses e uns dias, e consigo gerir perfeitamente a minha vidinha tal como ela é. Jealous much? E como eu, muitos outros.

Por isso, como vêem, nem tudo são rosas e isto até nem é aquilo que vocês pensam! Somos estudantes como outros quaisquer, simplesmente vamos ter uma profissão de maior responsabilidade. Vamos lidar com vidas e fazer o que estiver ao nosso alcance para vos ajudar. Por ora, também é importante divertirmo-nos e fazermos tudo aquilo a que o estudante tem direito.

Quando a altura chegar de tratarmos de vós, cá estaremos, e prometo que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para termos o melhor desempenho, porque isso, sim, é algo comum a todos os estudantes de medicina: sabemos a nossa importância, e não pretendemos "brincar" com isso. Não se preocupem.