sexta-feira, 25 de julho de 2014

A miséria não tira férias

Estamos, eu e os meus pais, de férias, como é nosso hábito nesta altura. Não somos pessoas de grandes luxos, e a nossa carteira também não nos permite tal coisa, mas, apesar de todas as contrariedades da vida, temos tentado, todos os anos, vir passar uns dias fora. Faz-nos falta o calor e os dias longos de praia, coisa que, onde moramos, acontece meia dúzia de vezes durante o Verão. Viver no Norte tem destas coisas.

Um dia destes fomos dar um passeio à noite, visitar o centro da cidade, ver a animação nocturna e o regabofe típico das noites quentes e abafadas. O povo todo na rua, os cafés que se estendem até ao mar, artistas de rua cantando um flamengo, meninas em trajes menores que nos tentam persuadir a ir até determinado bar, são coisas comuns que aqui se veem, e é impossível não gostar disto, deste descanso, desta despreocupação que baixa em nós durante as férias.

Enquanto passeávamos não pude, porém, deixar de reparar num homem sentado no chão encolhido, alheio à confusão à sua volta, com um pedaço de cartão arrancado de uma caixa de pizza gordurenta que alguém deitou fora e que dizia “Não tenho trabalho”. Que murro no estômago. Tudo à nossa volta em festa, e o homem, envergonhadíssimo, com um cartão e um copo a pedir esmola.

A minha vontade era de abrir a carteira e dar-lhe todo o dinheiro que tinha que, não sendo muito, certamente era mais do que ele via há muito tempo e dizer-lhe que vai tudo correr bem, que às boas pessoas a sorte não tarda em chegar. Saber que ele é boa pessoa é apenas um daqueles muitos instintos que o ser humano tem. Dei-lhe todas as moedas que tinha e recebi de volta o maior sorriso de gratidão e um “obrigado” sincero como há muito não ouvia. É tão simples fazer alguém (um pouco mais) feliz.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Revolução

Já há alguns tempos para cá que tenho notado em mim uma decrescente vontade de dissertar neste blogue sobre os assuntos que o originaram, isto é, os relacionados com a Medicina e a minha vida como estudante deslocada, e uma vontade que se comporta de forma inversa, entenda-se aumenta, de falar mais sobre as coisas do dia-a-dia, aquelas coisas mundanas pelas quais todos passamos e sobre as quais me apetece escrever aqui. Não quero com isto dizer, como é obvio, que a vontade de vos falar da minha vida de estudante desapareceu, tal não aconteceu, mas a verdade é que ultimamente me tenho visto em situações mais comuns dignas de serem registadas por escrito e partilhadas com os meus queridos leitores. Falar sobre livros, sobre as férias, enfim, sobre aquelas coisas que a maioria dos blogues já fala, parece algo imprudente para quem, como eu, criou um blogue com um tema definido, que era o de falar sobre Medicina. Contudo, sinto que ultimamente me tenho repetido e, além do mais, começam a escassear os assuntos interessantes e divertidos durante a época de férias. Certamente em Setembro terei muitos e divertidos novos assuntos sobre os quais falar, mas por agora, e perdoem a repetição, escasseiam.

Posto isto, quero apenas informar-vos de que vou aumentar os espectro de assuntos abordados por aqui, esperando que gostem e que continuem a fazer parte deste meu pequeno mundo.

A revolução ideológica começa agora, a visual virá mais tarde.

sábado, 19 de julho de 2014

O 3º ano

O 2º ano mal acabou e eu só me consigo concentrar no terceiro que aí vem. Defeito meu, que sofro por antecipação, que me preocupo com as coisas que só vão acontecer daqui a muito tempo.

O terceiro ano é assustador. Desde que cheguei a esta faculdade que não houve um único dia em que não tenha ouvido discursos do género:

"Espera até chegares ao terceiro ano";
"O terceiro ano é que é f*dido";
"Se te preocupas assim agora, quando chegares ao terceiro atiras-te da ponte";
"Quanto tiveres que estudar os fármacos todos vais ficar tola";

Queria conseguir desligar, com a certeza de que, se outros já o fizeram antes, também eu sou capaz. Afinal, eu já concluí, com sucesso, dois anos do curso de Medicina. Caramba, isso deve querer dizer que, afinal, não sou assim tão burra quanto penso.

Mas depois olho para as estatísticas e verifico que 1/4 do actual terceiro ano chumbou. Bons alunos, alguns até, provavelmente, melhores que eu, que enfrentaram o monstro e não venceram, foram comidos vivos pelas negativas, pelas reprovações, pela vergonha que é ter que assumir "Eu chumbei". E sinto-me pequenina, ansiosa, assustada, sem vontade de enfrentar o que aí vem e ficar de férias para sempre.

Que medo que tenho.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sobre o Verão

Quando acabam as aulas e começam as férias, eu fico com uma sensação de vazio dentro de mim, como se a minha existência deixasse de fazer sentido. O ritmo que nos é imposto desde Setembro, os testes e sessões de estudo em catadupa, as horas intermináveis sentadas à frente da secretaria e toda a correria e stress dão lugar à paz, ao descanso, ao não ter que fazer viagens semanais, ao ócio, e que bem que isto sabe.

Este ano, contudo, ao contrário do ano passado, decidi que as coisas iam ser diferentes. No ano passado passei o verão inteiro a ressacar do estudo e a descansar o máximo que podia mas, chegada a Setembro, concluí, com muita tristeza, que não fiz nada do que me tinha proposto fazer durante o verão. Queria ter lido mais, visto mais filmes, passeado mais, feito exercício, mas acabei por passar o verão com o rabo alapado na areia ou no sofá, a vegetar e desculpando-me com o facto de que "este ano estudei muito, agora preciso de descansar".

Este ano vai ser diferente. Por isso não tenho actualizado muito isto aqui. Conto com apenas uma semana de férias, mas neste pouco tempo aproveitei para fazer exercício todos os dias, visitei restaurantes na baixa que estavam na lista, fui ao cinema, passei um dia fora da cidade, fui a praia quase todas as manhãs e iniciei a leitura de um livro de Saramago. Pelo caminho voltei desgraçadamente ao meu vício de teenager, jogar Sims (eu sei, vergonha, mas eu tenho um problema), e tenho ficado até às tantas colada ao computador. Não devo, bem sei, até porque já começo a sentir o efeito de ir dormir tarde e acordar cedo para ir à praia. Vou tentar não abusar tanto esta semana.

Cheira-me que este vai ser um verão em grande. Para já, estou entusiasmada. A ver se assim se mantém.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Balanço do segundo ano

Tal como fiz o ano passado, com o término do segundo ano chega a altura de fazer o balanço do mesmo. Fiquem então com o resumo daquele que foi, até agora, o ano mais cansativo da minha vida.

Segundo ano de Medicina: Concluído;

Cadeiras deixadas para trás: nenhuma (não sei se já vos disse, mas deixar uma cadeira para trás nesta faculdade significa chumbar de ano e ficar um ano inteiro a fazer a cadeira que falta);

Cadeira preferida: Bloco de Cardio-Respiratório;

Cadeira preterida: Bloco de Aparelho Digestivo (ainda detestei mais do que Nervoso no ano passado, imaginem lá);

Horas desperdiçadas: Não muitas, infelizmente este ano não tive muito tempo para procrastinar, coisa que adoro;

Horas passadas a estudar: Demasiadas. A má organização do ano implicou estudo no dia de Natal, dia de ano novo, Páscoa, etc. Acho, sinceramente, que não houve um único dia em que não pensasse nos livros, para minha tristeza;

Professor/a preferido/a: O Cavaco (pasmem-se! Mas acabei por desenvolver um certo afecto pelo senhor);

Professor/a preterido/a: Isabel Neto... (Nunca vos falei dela mas a mulher é simplesmente desprezível);

Professor/a mais giro/a: Nenhum. Constata-se que este ponto continua igual ao do ano passado. Cheira-me que continuará assim até ao final do curso, com grande pena minha;

Professor/a mais feio/a: Todos? Esta faculdade não prima, definitivamente, pela beleza dos seus docentes.

Este ano foi, como já disse várias vezes, cansativo, exaustivo, e por vezes emocionalmente complicado. Apesar de já andar nestas andanças há dois anos, por vezes uma pessoa vai abaixo, só quer ficar em casa e deixar de fazer estas viagens de 270km todas as semanas. Esta vida itinerante não é fácil, mas gosto de pensar que já só faltam 4 anos e que o pior já passou.

Aguarda-me o terceiro ano, aquele que todos temem, o ano da morte, dos reprovanços em massa, das quedas de notas a pique, do "salve-se quem puder".

Por agora vou aproveitar as férias, descansar, e em Setembro logo se pensa nisso.